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Iconografia

Olhar nosso quintal

"Muito silêncio, a maré baixa descobrindo o apicum sem fim [...], um friozinho molhado [...], os vazamarés e outros caranguejinhos de plantão á porta de seus buraquinhos, e enchente começando a lamber o borda mangue, um lumezinho bruxuleando na porta da casinha que ficava embaixo do coqueiro, uma vontade mansa, meio boba, meio sem pé nem cabeça de que aquilo tudo parasse, que não fosse necessário fazer mais nada, quase como se a ala saísse do corpo." (RIBEIRO, 2007, p239)

 

Neste pequeno fragmento recolhido do livro Viva o Povo Brasileiro, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) esta falando do tempo em movimento, em um recanto da ilha de Itaparica, lugar onde nasceu. Gostaria de agregar a essa descrição uma visualização cromática e imaginária.

Nessa perspectiva ficcional convido você leitor a colorir o referido fragmento e a imaginar a paleta de cores em movimento, com seus distintos matizes- a cor indicada pela ação não finalizada, ou seja, a cor em um tempo contínuo, no qual pode residir a essência das harmonias cromáticas.

Então pergunto - De que cor seria este "friozinho molhado"? Que matizes cromáticas teriam os "vazamarés e outros caranguejinhos"? De que cor seria a "casinha que ficava embaixo do coqueiro"? E quando o coqueiro projetasse sua sombra, ou o vento soprasse suas folhas, a casinha mudaria de cor?

Para encontrar possíveis respostas, ou melhor, para imaginar uma paleta cromática, irei rememorar também um encontro que tive com uma artesã que tecia lindas colchas coloridas, lá nas bandas de Baiacu, na contra costa da Ilha de Itaparica. Então, perguntei: 

- Como você consegue tecer tantas harmonias cromáticas? Ela me respondeu: 

- Observando as flores que crescem ao redor... Para cada flor, uma manta. Simples assim.

A partir dessas breves reflexões acredito que a percepção metamorfoseia a realidade com a nossa memória, sob a influência direta da luz. Embora isso seja totalmente provocativo, é cientificamente constatável, pois, sendo a cor um fenômeno  de radiação física, ela pode revelar - por ativação de átomos da periferia da cor dominante por contraste com a cor indutora - a coloração complementar que surge nos corpos chamados incolores, como resíduo de absorções dos raios luminosos incidentes, pois ela é controlada por meio da absorção e reflexão dos raios luminosos pela matéria. Um fator a ser acrescido é que "nenhum corpo absorve ou reflete integralmente a totalidade dos raios luminosos incidentes." (PEDROSA, 1991, p39). Então, poderemos encontrar uma possível paleta cromática, em um "tempo gerúndio", potencializada não só pelo matriz (comprimento de onda), pelo valor (luminosidade ou brilho), pelo croma (saturação ou pureza da cor), mas, essencialmente, pelo nosso imaginário.

Pode-se pensar, assim, que a percepção de cada território de origem, de cada "quintal", seja fator essencial para estimular o processo de criação, ou seja, essas percepções estão estreitamente relacionadas com o potencial da matéria encontrada em cada local, assim como a cor do lugar, sua topografia, seu clima, sua vegetação e essencialmente, a experiência. Sim, a arte reside no nosso quintal, seja ele físico, subjetivo ou ficcional. Considero a identidade cultural um adjetivo do sabe. Logo, a junção das duas palavras - identidade e cultural - produz o sentido de saber se reconhecer como espaço geográfico, tempo gênero, raça, história, nacionalidade, crença religiosa e etnia. Em síntese, o processo criativo é estimulado, conjuntamente, pela percepção e reconhecimento de sua identidade, como nos mostra Caetano Veloso, na letra da sua música " Trem das cores". Sugiro escutar.

Escutou? Pois bem, com possibilidades de mutações cromáticas, Caetano percebeu os contrastes mutáveis tratando metaforicamente os fenômenos cromáticos que ocorrem em graus e situações diferentes, por alteração de uma ou mais cores químico-físicas em presença uma das outras e , essencialmente de sua identidade cultural. A cor e o trem, ambos em movimento, "recortadas" de sua infância em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano.

Importante observar que o artista mineiro Israel Pedrosa (1926-216), como já sinalizei anteriormente, no seu livro, "Da cor a cor Inexistente", abriu caminho próprio a partir de uma descoberta a que ele deu o nome de cor inexistente. Pedrosa reduz a experiência estética ao aqui e agora das excitações da retina. E isso não impede - pelo contrário, propicia - tal intensificação do campo visual que termina por desencadear em nós uma carga de impacto, e por um instante que seja, nos fascina, como os "Reinos do Amarelo" do porta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

"A terra lauta da mata produz e exibe um amarelo rico (se não o dos metais); o amarelo do maracujá e os da manga, o do anti-da-praia, do caju e do cajá; amarelo vegetal, alegre do sol livre, beirando o estridente, de tão alegre, e que o sol eleva de vegetal a mineral, polindo- o, até um aceso metal de pele."

Então, é possível falar que o universo da cor que nos cerca é um mágico caleidoscópio que, em um tempo gerúndio, constitui a alma desse universo. A percepção das múltiplas aparências dessas cores indica um elevado estágio de conhecimento sensível. Em nossas andanças, podemos flagrar a cor com os seus infinitos matizes, que podem nos conduzir á conscientização das manifestações mais sutis da natureza, para potencializar o percurso criativo.

Nessa perspectiva, acredito que a escolha da paleta cromática está atrelada ao reconhecimento de cada "quintal", de cada lugar de origem, povoados de distintas identidades culturais, as quais, por sua vez, estão em contínuo movimento, pois vivemos o mais dinâmico e colorido dos séculos de que se tem noticia, prelúdio de um futuro cada vez mais luminoso e de um desenvolvimento sem precedentes de novos códigos de expressão e de comunicação visual, que precisam perceber e potencializar suas "raízes" para se tornarem "universais".
 

Viga Gordilho

Maria Virginia Gordilho Martins, conhecida como Viga Gordilho, é artista visual e Prof, Dr da EBA/ UFBA. Realizou exposições individuais e coletivas em espaços culturais, museus e instituições, em várias cidades, brasileiras, africanas e europeias. Autora de livros, textos e artigos sobre processos criativos. Membro da ANPAP - Associação Nacional e Pesquisadores em Artes Plásticas desde 1996 e da Academia de Ciências da Bahia.

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