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Sincretismo

Olhar a fé

Falar de artesanato e de arte, é enaltecer a simplicidade, É incorporar riquezas e valores que aparentemente não estão tão visíveis. É beber de fontes que não se esgotam em sua estética, trasferindo-nos para para um lugar singelo, leve e belo. A simplicidade convoca o instituto, clama a intuição, oferta possibilidades de criação para que possa conhecer um "novo". A partir da simplicidade, cresce a generosidade e, com ela, partilhamos sentimentos de doação.

Devemos também apreciar e comtemplar as grandes obras artísticas de museus, os produtos de arte padronizados que compõem a indústria cultural. Contudo as obras-primas produzidas artesanalmente, de forma simples, criam laços de identidade, afetividade e amor. Muitos pesquisadores temem falar sobre artesanato, para não serem considerados reducionistas. Entretanto comtemplar o artesanato apreciando-o, é valorizar o grande artista que, através de suas mãos, atua de forma simples e singular.

A Bahia tem o enorme privilégio de reunir, em seu celeiro artesanal, expressões soberanas de identidade, estética, sabores, cultura, ritmos, sobretudo de fé. Uma fé não apenas de cunho religioso, mas uma fé impregnada no fazer, permitindo que cada peça criada registre emoção e simplicidade. Manter viva a preservação do patrimônio cultural, material e imaterial, legítima a importância do artista-artesão para com a sua arte.

Dentre tantos ícones de nossa Bahia, no que tange patrimônio material e imaterial, Irmã Dulce, além de grande personalidade, destaca-se na grande personalidade, destaca-se na construção do imaginário através de uma imagem-símbolo: uma mulher de fé que, recheada de valores utilizou suas mãos para, de forma simples criar e transformar dificuldades em vitórias.

"No amor e na fé encontraremos as forças necessárias para nossa missão." (Irmã Dulce)

A própria Irmã Dulce consolidou sua missão através dos alicerces do amor e da fé, traduzindo sua generosidade em diversidade, seu jeito singular e inclusivo, sua persistência em simplicidade, desenhando um mosaico de valores atemporais que possibilitaram a remoção de suas fraquezas, transformando seus feitos em uma grande obra. é imensurável a importância da obra deixada pelo "Anjo Bom da Bahia" - uma verdadeira obra de arte que tece conexões não apenas para o acolhimento de seus doentes, mas transgride a arte da transformação. O exemplo está no mosaico desenvolvido pelo artesanato pelos assistidos do CCIDP- Centro de Convivência Irmão Dulce dos Pobres e do CATA - Centro de Acolhimento e tratamento de Alcoolismo.

O referido mosaico transforma vidas, (re)organiza o caminho de cura e , sobretudo, faz essas acreditarem em si, oportunizando vivências e experiências singulares com sua criação. Ressignifica seu processo, possibilitando um novo olhar para o estético e para o belo. Sai de um lugar intrêmulo e gera movimento, pois cada fragmento irá compor um mosaico de sensibilidade, de história e arte. Assim como Irmã Dulce, os artesão utilizam as mãos de forma simples, para criar uma arte grandiosa de valores, amor e fé.

Anualmente, é possível contemplar a mistura do artesanato, da fé e da devoção na ornamentação dos altares de Santo Antônio, no Memorial irmão Dulce, no qual está imbricada uma tradição, um fazer popular que é passado por gerações. A devoção da "Bem Aventurada" ao Santo existia bem antes de ela entrar para a vida religiosa, uma ligação de fé e "amizade", pois era a Ele que fazia seus pedidos e orações. O altar com a imagem pertenceu a seu avô, Manoel Lopes Pontes.

Cada produção não se resume a papéis coloridos, fitas, arabescos traçados, nos materiais sustentáveis e recicláveis. Ela se realiza, sobretudo, nos elementos que compõem o altar: ora a toalha de renda para embelezar o local da imagem do santo, ora os porta-velas e incensos incrementados de detalhes para enaltecer o momento de louvor, confeccionados por mãos simples, que alimentam uma tradição secular.

A ornamentação do altar de Santo Antônio de Irmã Dulce enaltece as crenças e os festejos do catolicismo popular, bem como feição lúdica,

 aproximando devotos de diversas religiões, um verdadeiro convite ás habilidades artesanais.

Preconizar o sagrado no fazer artesanal legitima, as expressões populares de identidade e resistência de nosso povo, eternizadas em sua devoção e no oficio artesanal, possibilitando ao artesão uma alma equilibrada, leve, recheada de arte e fé.

 

Mônica Silva

Artista Plástica e Arte-Educadora do Memorial Irmã Dulce.

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